O único carro que tinha na casa era uma caminhonete velha. Como não queríamos ser vistos, teríamos que ir de carro. Luan deu a partida algumas vezes mas ela não pegou.
-Sai daí. Deixa eu tentar.
Ele desceu do carro e eu passei pro banco do morista. Foi só eu virar a chave que ela funcionou perfeitamente.
-O que você fez?
-Ué, dei a partida.
-Você tem carteira?
-Quem liga? -assim que saí da garagem, olhares curiosos se voltaram para o carro.
-Abaixa Luan.
Ele abaixou a cabeça.
-Você não quer ser vista comigo?
-Eu não quero ser vista. Nem com você, nem com ninguém, nem sozinha. Passei pela praça principal e vi alguns dos meus "amigos". Eles me olhavam com estranhamento, como se eu fosse uma pessoa com algum tipo de anormalidade. Se eles ao menos soubessem a fragilidade de tudo o que existia à sua volta...
-Como está a cidade?
-Vazia, muito vazia. Nunca tinha visto Girassol desse jeito.
Quando passamos em frente à casa do Lucas, vi a Karina enxugando mais lágrimas. O que será que passava na cabeça dela? Logo estávamos no caminho de terra. O que eram cinco minutos à pé era bem mais rápido numa caminhonete velha. Luan levantou a cabeça. Logo chegamos e eu deixei a caminhonete na entrada.
Desci e fui andando, achando que Luan estava atrás de mim.
-Kate! Kate, espera. -olhei pra trás e Luan continuava parado na entrada.
-O que aconteceu?
-Eu não consigo passar.
-O quê? Deixa de frescura, anda logo.
-Não, eu não consigo. É como se tivesse algum tipo de vidro ou... não sei. Alguma coisa que me impedisse de entrar.
Fui até ele e o puxei, sem sucesso. Minha mão também ficava presa do lado de fora.
-Eu não consigo também. Que droga!
-Deve ter alguma coisa a ver com o colar. E com eu estar... você sabe, virando... Kate. -ele parou de falar e ficou como se estivesse congelado- Olha, Kate!
Olhei pra trás e vi um rostinho mais do que conhecido correndo em nossa direção. Seus cabelinhos loiros balançavam com o vento, mas não mais que suas mãozinhas.
-Peter!
Ele correu na direção do Luan, mas parou antes de chegar nele. Eles se encararam por um bom tempo.
-O que foi?
-Ele não pode sair. E eu não posso entrar. Vamos ter que adiar nosso abraço. -o rosto do Luan ficou triste e percebi algumas lágrimas se juntando em seus olhos. O Peter também parecia muito triste.
-Kate, ele quer te mostrar uma coisa. Vá com ele.
Peter me estendeu a mão e me puxou em direção à casa.
Olhei pra trás e Luan já estava dentro da caminhonete novamente. Quando entrei na sala, estava totalmente diferente da última vez. Estava tudo escuro, com apenas alguns focos de luz. Tinha uma cama encostada na parede, e o que parecia alguém deitado nela e coberto da cabeça aos pés. Não me restaram dúvidas de quem era.
-Pai? -puxei a coberta, e era ele mesmo dormindo, ou parecendo dormir.- Pai! Pai, por favor acorda! O que fizeram com você?
Me sentei na cama e coloquei ele em meu colo. Beijei sua cabeça em meu colo e não conseguia parar de chorar.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Quarenta e Nove
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Ai meu core *-*
ResponderExcluirContinua logo Danda. E não mate o Soró.
Loma
Este comentário foi removido pelo autor.
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