POV LUAN
Minhas mãos começaram a suar. Talvez a praia não tivesse sido o melhor
lugar para marcar, após ter acordado ali da última vez. Sonhos estranhos
fazem parte da vida de qualquer pessoa, mas sonhos estranhos por dias
seguidos, acompanhados de sonambulismo certamente não eram normais.
A Katherin estava demorando demais. Já tinha se passado mais de meia
hora da hora que havíamos combinado, e eu gostava menos ainda da
sensação de que estava sendo observado.
Talvez fosse culpa do que eu havia feito na noite anterior. Não deveria
estar pensando naquilo, mas o que fiz me incomodava. Passar a noite com a
garota que você enrola desde quase sempre não devia ser bom. Mas havia
algo de diferente na Micaella. Talvez fosse a voz, ou o jeito dela se
vestir. Sim, ela era linda, mas dizer que passar uma noite com ela
estava em meus planos era mentir bastante.
Enquanto esperava a Katherin, meu sono vinha. Havia passado a noite em
claro, tentando fugir dos sonhos e do medo de morrer dormindo. Se eu
continuasse daquele jeito, iria ter que procurar um médico.
O ferimento que havia surgido em meu pescoço pela manhã começou a me
incomodar. Era uma bolinha minúscula, mas passou o dia dando pequenos
choques em mim, o que parecia viajar pela minha corrente sanguínea. Era
outro motivo para ir ao médico. Queria saber que tipo de inseto fazia
aquele estrago.
Estava já desacreditado de que iria ler aquele diário naquele dia quando ela chegou.
Tinha algo de errado comigo. Algo de muito errado. Primeiro a Micaella, e
agora a Katherin parecia irresistível pra mim. Tudo bem, já a via assim
a muito tempo, mas nunca daquele jeito. Meu olho foi diretamente para a
gargantilha dela. Uma pedra azul brilhava forte. Olhar para aquela
gargantilha me fez sentir como quem leva um soco no estômago. De repente
tomei repulsa por ela. Isso podia acontecer? Alguém que te faz mudar de
estado de espírito em menos de um minuto não podia lhe fazer bem, mas
eu precisava do diário, e ele estava com ela.
Espera. Como assim eu precisava? Queria ler ele por curiosidade e só. Não era como se minha vida dependesse de um diário de uma pessoa que eu nem conhecia.
Quando Katherin chegou perto de mim, algo me deixou alerta. Porém,ao desviar o olhar para sua gargantilha, a repulsa voltou.
-Oi. -ela disse.
-Oi. Você demorou.
-Não foi fácil explicar o que aconteceu para o meu pai.
-Então... trouxe?
-Trouxe.
Estávamos conversando normalmente. A quanto tempo um Santana e um Smith
não conversavam pacificamente, sem socos ou armas (pelo menos da minha
parte)?
-Vamos sentar ali. -apontei para uma mesa vazia e fomos até lá. Assim que se sentamos, ela voltou com seu tom hostil.
-Vou tentar cooperar. A vovó deve ter tido um bom motivo pra fazer isso.
-Só quero ver o que tem aí e ficar em paz.
-Igualmente.
Mas algo me dizia que aquilo não iria trazer paz. Ela colocou uma maleta
em cima da mesa, colocou a senha e a abriu. A tensão era visível em nós
dois.
A capa do diário dizia "Joanna Santana".
-Santana? Eu não entendo como...
-Parece que sua família tem algo que pertence à minha família.
-Não começa. A gente não pode julgar qualquer coisa sem saber dos motivos.
-Diz isso porque não sou eu quem está com um diário escrito Joanna Smith na capa.
-Não tem como. O Smith veio depois do diário ser escrito.
-Como era o nome da sua família aqui no Brasil? Antes de vocês saírem.
-Alvarenga. Assim como a fazenda.
-Então que tal Joanna Alvarenga? -ela me olhou mal humorada.
-Esse diário é de antes de Girassol ser uma cidade. Temos que ter cuidado.
-É, eu sei. É antigo e tudo mais.
Ela tirou o diário de dentro da maleta e colocou em cima da mesa. Abriu a
capa com cuidado. O diário parecia ainda com as folhas novas, como se
tivessem acabado de escrever nele.
"Dois devem procurar, achar, construir e destruir essas palavras. Com um
casal iniciou-se a humanidade e também por um casal ela terá seu fim.
Um destino a se cumprir, amores para descobrir, uma aventura a viver.
Com uma história para contar, a maldição acabará. Em trevas ou luz a
história se findará."
-Ah meu Deus. -a Katherin empalideceu e parecia em choque.
Eu conhecia aquelas palavras. Uma voz de mulher aterrorizante sempre me
dizia isso. Toda noite, antes de acordar em um lugar que eu nem
conhecia.
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