POV LUAN
Chegamos por volta de uma da manhã em Santa Cruz de La Sierra. A Katherine estava com uma cara de sono, e queria seguir viagem, mas ela tinha que parar numa cama de verdade. E eu estava faminto. A deixei dormindo, prometendo-lhe que iríamos para La Paz assim que ela acordasse e saí para tentar acalmar minha fome.
A todo momento, as palavras daquela mulher não saíam da minha cabeça. Mesmo que o mundo não acabasse, algo muito grande estava pra acontecer. Eu só não sabia o quê, e tinha medo de não aguentar.
*
-A que horas sai o ônibus?
-Daqui a três horas. Ainda podemos conhecer a cidade.
-Não. Tá chovendo.
De novo, a Kate parecia se fechar pra mim. Eu sabia que ela estava protegendo o seu coração, mas tentava fazê-la voltar ao normal de todas as formas.
-Pra você. -estendi pra ela uma trufa de chocolate que havia comprado pra ela- derreteu um pouco, mas você pode colocá-la no frigobar.
-Não tem tempo pra isso.
-Isso o quê?
-Beijos, bombons... a gente tem que se concentrar no que viemos fazer.
-Eu vim para te proteger. E vou fazê-lo a todo custo. Mas Kate, só temos um ao outro, a gente tem que -'ficar junto' disse na minha cabeça- nos acostumar com isso. Que seja na melhor forma.
Ela pegou a trufa e sentou na cama, pegando o controle da televisão.
-Não, não vê tv. Só tem coisa ruim. -peguei da mão dela- Vamos conversar.
Kate ficou olhando para a minha camiseta.
-O que foi isso?
-Ah... devo ter molhado em algum lugar. Sorte que é preta.
Tirei e fui até o banheiro lavar. Senti seu olhar, mesmo de costas. Fingi que não vi. Assim que a camisa começou a ser limpa, vi o que a estava manchando: sangue. Era difícil me alimentar em uma cidade que eu nem conhecia, e era super fácil eu me perder, mas rapidamente achei o caminho de volta. Terminei de limpar a camisa e fiquei olhando a Kate da porta. Ela estava coberta do pés à cabeça, acho que com vergonha de ter ficado me observando. Deitei do lado dela e descobri seu rosto.
-Você tava me olhando?
-Não.
-Não mesmo?
-Só por um tempo -ela corou- É porque eu não tenho o costume de te ver assim.
-Eu só estou sem camisa.
-Pra você pode não ser nada, mas pra mim é muita coisa.
-Muita mesmo?
-Ah, para! Você sabe que não é nesse sentido. -ela se cobriu de novo.- Vou dormir um pouco, já que eu não posso fazer nada.
-Tudo bem.
-Boa noite.
-Está quase amanhecendo.
-Boa noite.
-Boa. -respondi rindo.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Cinquenta e Sete
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