sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Cinquenta e Seis

POV LUAN
Depois do almoço a Katherin dormiu. Resolvi dar uma volta no vagão. Achei uma tv, que tinha somente uma pessoa sentada assistindo, uma moça que estava agarrada numa bíblia. A tv mostrava o Rio de Janeiro. A tempestade era enorme, tinha várias pessoas desabrigadas, e o nível do mar tinha subido além do normal.
-Você está preparado?
-Pra quê?
-Pro fim do mundo.
-Acho que não.
-Quem é que está? -ela sorriu.
-Acho que no fim, vamos descobrir um jeito. Eu não faço ideia de como, mas também não fazia ideia de que estaria aqui. Então, vamos descobrir. Talvez o mundo não acabe.
-É. Talvez a profecia esteja errada. -gelei na hora.
-Que profecia?
-Você não vê tv?
-Não tenho muito tempo.
-Descobriram um calendário muito antigo. Fizeram milhares de anos, e ele termina justamente dia 20/12/2012. Dizem que é o fim do mundo.
Fiquei pensativo por um bom tempo. O ano foi tão movimentado, jamais iria pensar nisso. Não podia ser mais uma coincidência.
-Também falam sobre a ira de algum deus e sobre criaturas da noite.
-E você acredita? Nessas tal de criaturas da noite...
-Não sei. É meio surreal não é? Lendas e mais lendas... Além do mais, a gente já teria provas. Ou já pensou, você, sei lá, num trem e uma "criatura da noite" -ela fez aspas com a mão- sentada do seu lado.
Sorri sem graça.
-Toda lenda tem um fundo de verdade.
Ela ficou me olhando e depois pegou na minha mão.
-Você tá tentando me botar medo?
O cheiro dela chegou imediatamente até a mim. A sensação era como quando eu chegava da escola com fome e a minha mãe estava terminando o almoço. Só que umas cinco vezes maior. Eu queria sentir o gosto dela e saber se era tão bom quanto o cheiro, mas não fazia ideia de como fazer. Tentei me lembrar dos filmes que tinha visto. Parecia tão fácil, mas não era legal você chegar do nada mordendo o pescoço de alguém. E eu não sabia onde segurar, qual seria a sensação... Eu poderia tentar. Não tinha ninguém por perto e seria fácil me livrar dela com o trem...
-MÃE! -uma menina de três anos entrou correndo e pulou nos braços da moça.
-O que foi meu amor?
-Eu olhei pro lado e não te vi, fiquei com medo.
Me levantei e voltei pra perto da Katherin. O que eu estava perto de fazer? O que eu tinha me tornado?
Me abaixei no chão e comecei a chorar.
-Luan? -a Kate chamou.- O que aconteceu? Nunca te vi chorar.
Ela sentou do meu lado.
-Eu... não... não chega perto. -respirei fundo e enxuguei as lágrimas- eu não quero te machucar.
-Você não vai me machucar. Eu confio em você. -ela beijou minha cabeça- Você é mais forte. Eu tô do seu lado. Olha pra mim. -levantei a cabeça- A gente passou por isso tudo juntos, e vamos ficar juntos até o fim. Mesmo que ele esteja perto. Ou que esteja longe, que é o que eu mais espero.
Ela cobriu meu rosto de beijo.
-Eu te amo Kate.
Ela parou e olhou pra mim. Eu também não acreditava que tinha dito aquilo, mas disse. E a beijei com mais vontade do que qualquer outra vez.

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